Alimentação Saudável – “Mas mãe, eu não gosto de brócolos!”

Alimentação Saudável

“Mas mãe, eu não gosto de brócolos!”

meninoOu de lentilhas, ou de espinafres, ou de grão, ou de qualquer coisa que seja saudável e que não esteja triturada numa sopa – e já na sopa “sabe Deus”. Quem nunca ouviu esta frase, muito provavelmente não tem filhos. Numa época em que os alimentos açucarados e processados ganham terreno, os legumes, os cereais integrais e as leguminosas tornam-se facilmente o inimigo. Como podemos pôr as crianças a comer bem e a ter uma alimentação variada e saudável, sem fazer da hora da refeição um drama? Comecemos por separar o drama maior em dois. Temos então o drama 1: eles recusam-se a provar alimentos novos. Perante a pergunta “já provaste?”, é quase inevitável a resposta “não, mas eu sei que não gosto!”. E depois temos o drama 2: o nosso paladar educa-se, e tanto ganha bons como maus hábitos. É natural que uma ingestão mais elevada de açúcar, sal, gordura, aditivos artificiais e alimentos processados no geral leve a uma maior resistência a sabores mais naturais. Há inclusive estudos que sugerem que com o consumo crescente desses alimentos perdemos sensibilidade no paladar. Como resolver estes problemas?

Comecemos pelo drama 1. Eis o que não deve fazer:
– Ameaças que não vai cumprir. Não serve de nada dizer-lhe que se não comer a sopa também não come mais nada, sabendo que vai acabar por dar-lhe outra coisa.

– Ceder depois de insistir meia hora. Se lhe diz que tem de comer, ele tem mesmo de comer. De outra forma, estará apenas a ensinar-lhe que se for teimoso o suficiente, você acaba por desistir (e ele acaba por ganhar).

– Ameaçá-lo com possíveis castigos que nada têm a ver com a situação – além de não estar a ensinar-lhe nada, está a associar a refeição a uma situação aversiva, quando o que se pretende é o oposto. Além disso, consequências a longo prazo e que são apenas uma possibilidade não costumam funcionar. Dizer-lhe “se não comes os brócolos, no fim-de-semana já não vamos ao parque” não serve de muito se ainda for terça feira e entretanto até você se esquecer de que não era suposto ele ir ao parque – além do que de terça a sábado o seu filho pode ter feito muitas outras coisas fantásticas e que podiam de facto merecer uma ida ao parque.

O que pode, então fazer?
– Comece com uma exigência simples. Inicialmente, exija que ele prove apenas um alimento novo de cada vez – só isso, prová-lo. Se não gostar, pode não comer.

– Ofereça escolhas. Coloque-lhe no prato dois alimentos novos diferentes e deixe que ele escolha qual dos dois quer provar (até pode colocar-lhe no prato apenas o que ele escolher). Na escolha devem ser sempre oferecidas as duas hipóteses, de forma a que tenha de escolher uma (“queres provar x ou queres provar y?”); é bom que estabeleça que não provar nenhum não é opção.

– Defina consequências – positivas – para o comportamento que quer que aumente. As consequências devem ser imediatas e utilizadas de forma consistente. Por exemplo, se ele provar o alimento que escolheu sem resistência, pode repetir o arroz (ou outro alimento da sua preferência). Procure que as suas consequências sejam sempre positivas – “como fizeste x, tens y”, em vez de “se não fizeres x, não tens y”; sabermos que ganhamos algo resulta melhor do que apenas sabermos o que perdemos. Devem também ser específicas para este comportamento e não estar disponíveis para outros – de que serve dizer-lhe que naquele dia não vai ver televisão se não comer tudo, se no dia seguinte ele puder ver televisão porque fez os trabalhos de casa?

Experimente, insista – e, acima de tudo, não ceda. Cumpra o acordado. Se ele não comer nada de jeito na primeira tentativa? Paciência, não come – sejamos realistas, o que acha que vai acontecer? O seu filho vai entrar em greve de fome prolongada ou vai aprender que para ele obter aquilo que quer de si, primeiro tem de cumprir a sua parte do acordo? E o que acha que é pior para a saúde dele – saltar uma ou duas refeições para depois aprender a comer melhor, ou viver infância fora a alimentar-se de massa com salsichas? Quanto ao drama 2, este é relativamente fácil de resolver. Tenha em conta que tudo o que o seu filho come influencia não só a sua saúde, mas também a facilidade com que aceita outros alimentos. Não é novidade que o açúcar vicia o cérebro – quanto mais açúcar comemos, mais o nosso cérebro pede alimentos açucarados, e mais rejeita os saudáveis. Lembre-se que o açúcar está presente em tudo – desde os iogurtes, vendidos como alimentos saudáveis, até aos pães de leite, pães de forma, cereais “integrais” e muitos outros produtos vendidos como sendo apropriados para crianças. Meta mãos à obra e faça você os snacks – hoje em dia há imensos blogues de comida saudável, com receitas de bolachas, panquecas e bolos sem açúcar adicionado e simples de fazer. Envolva-o na elaboração do lanche (a maioria das crianças gosta de fazer biscoitos) – vai tornar tudo mais divertido, tornar os lanches mais saudáveis e acabar por habituar o seu filho ao doce natural da fruta e do mel em vez dos açúcares em que os alimentos processados vêm empestados. Experimente – com consistência. A saúde dele agradece, e a sua paciência também.

Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental