Taras ou manias?

Todos os dias, quando entro no carro, ligo o rádio e ajusto o volume – tem de esradiotar sempre no 10. Se me perguntarem porquê, eu não sei responder, mas o volume do rádio não estar no 10 faz-me alguma confusão. É como se alguma coisa não estivesse no sítio certo. Na eventualidade de precisar de aumentar o volume faço-o, mas fico-me pelos números pares – ou está no 12, ou no 14; nunca no 11 nem no 13. Porquê? Não faço ideia. Em conversa com alguém que conheço sobre este assunto, a pessoa acenou entusiasticamente com a cabeça e disse “Claro que o volume do rádio tem de estar em números pares! Mas a exceção é o 13… O volume do rádio também pode estar no 13.”.

A maioria das pessoas tem hábitos deste género – são apenas isso, hábitos, que criamos por acaso e que por norma estão associados a uma forma qualquer de reforço que pode até não ser consciente e estar muito distante no tempo. No meu caso, sempre gostei mais de números pares do que de ímpares, não há muito a fazer. No caso das pessoas que estendem cada peça de roupa com molas a condizer, possivelmente começou por ficar mais bonito assim, e agora que já se tornou um hábito, o ritual mantém-se porque é mais agradável fazê-lo do que não o fazer. Mas convenhamos, se eu for no carro de outra pessoa, não quero saber em que número está o volume do rádio. Não deixo de andar no carro de outra pessoa para poder controlar este aspeto, se conduzir um carro que não me diga o número correspondente ao volume não fico nervosa, e com certeza não vou precisar de parar o carro para respirar se um dia o botão do volume avariar e ficar preso no 11. E é esta a diferença entre ter pequenos rituais e sofrer de Perturbação Obsessiva-Compulsiva (POC). E é uma diferença abismal.

Sofrer de POC implica uma combinação de obsessImagem relacionadaões com compulsões. As obsessões são pensamentos ou imagens mentais intrusivas, persistentes, desadequadas e frequentes, associadas a algo extremamente desagradável para quem as tem e que geram ansiedade em níveis elevados. Agregadas a esta ansiedade, como forma de fuga da mesma, surgem as compulsões – os comportamentos também repetitivos e desadequados que nos permitem baixar a ansiedade. O problema é que esta redução da ansiedade é temporária, voltando as obsessões à carga e trazendo os comportamentos compulsivos atrás. Com alguma frequência, as pessoas que sofrem de POC também evitam situações que envolvem o conteúdo das obsessões (alguém cujas obsessões giram em torno do contacto com bactérias pode evitar mexer em coisas sujas, cumprimentar estranhos, usar casas-de-banho públicas, etc).

Em última instância, o que define o transtorno é o facto de estes comportamentos afetarem a vida pessoal, profissional e/ou social do sujeito e de ocorrerem durante uma parte considerável do dia. Há pessoas cujas compulsões passam por recitar listas de nomes ou de números mentalmente ou em voz baixa um elevado número de vezes por dia, o que Resultado de imagem para perturbação obsessiva compulsivanão é compatível com os níveis e tempos de concentração exigidos para a maioria dos trabalhos. Ao mesmo tempo, é difícil relacionarmo-nos com os outros, quando o nosso cérebro está a ser agressivamente invadido pela imagem mental de milhares de germes a subirem-nos pelos braços acima. Como referi anteriormente, é esta a diferença entre ter uma mania e sofrer de POC – caso perceba que não tem um par de molas da mesma cor para estender uma última camisola, provavelmente não precisa de ir a correr comprar um novo conjunto de molas, tirar a roupa toda da corda e voltar a estendê-la com as novas; provavelmente, quando estiver com os seus amigos, não vai estar a perguntar-se se não se terá enganado numa cor. Não é exagero – viver com POC é extenuante e leva a pessoa a níveis de sofrimento elevados. Geralmente, quem sofre de POC não vive em negação – pelo contrário, sabe que os seus comportamentos não são normais, sabe que devia parar e que nada daquilo faz sentido, mas a sensação geral é a de que não tem alternativa – tem de fazer aquilo e pronto.

Resultado de imagem para criança com ansiedadeAtualmente, estima-se que esta perturbação prevaleça em 1 a 2% da população mundial, sendo que na maioria dos casos os sintomas surgem na adolescência ou na idade adulta e prevalecem em indivíduos do sexo masculino. Apesar de não haver causas identificadas, há fatores de risco, tais como o fator genético ou um evento traumático. Apesar de ser rara a manifestação desta perturbação em crianças, fique atento se o seu filho:

  • Já tem rituais rígidos (serem rígidos implica que não podem nunca ser de outra forma – se ele alinhar os brinquedos de certa forma todos os dias isto pode não significar nada, mas o que é que acontece se ele não encontrar um dos brinquedos? Ou se alguém acidentalmente desviar um deles um centímetro do sítio?);
  • Fica bastante afetado se não puder realizar estes rituais (por exemplo, faz birras longas, exageradas e desproporcionais à situação);
  • É excessivamente atento aos detalhes;
  • Manifesta preocupações excessivas acerca de hipotéticos acontecimentos maus (perder os pais, ter um acidente, morrer);
  • Aparenta ter rituais mentais (contar sempre até ao mesmo número em circunstâncias específicas, repetir lengalengas vezes sem conta…);
  • Não consegue desligar-se destes rituais para brincar ou para realizar outras atividades.

A intervenção comportamental tem-se verificado eficaz na redução destes comportamentos em qualquer idade. Este tipo de intervenção age diretamente nos comportamentos que se pretende reduzir (inclusive os pensamentos), através de técnicas como a exposição gradual.

Agora que já sabe que sofrer de POC não é simplesmente lavar as mãos muitas vezes ou gostar de manter os objetos alinhados de certa forma, não hesite em procurar ajuda se algo deste género estiver a afetar a sua vida ou se suspeita que afeta a do seu filho. Bom, caso se levante da cama para ir verificar se a porta está trancada uma ou duas vezes, esqueça; tem uma mania como a minha, não será grave. Contudo, caso precise de trancar e destrancar a porta 7 vezes seguindo uma sequência exata de 12 passos de cada vez, provavelmente podemos ajudá-lo – contacte-nos.

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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