“Vou contar até 3!”

!Pode levantar o dedo quem tem filhos e nunca lhes disse esta frase. Todos os pais, alguma vez na vida, contam até 3 – maioritariamente com o objetivo de terminar um comportamento ou de iniciar outro. Contar até 3 não é grave; não prejudica o seu filho, não é uma estratégia aversiva e também não o marca para a vida. Contudo, contar até 3 também não lhe ensina nada, já que, com frequência, não há uma consequência quer ele tenha o comportamento pretendido ou não. O problema de contar até 3 começa precisamente aqui – contar até 3 não é uma consequência.

Os nossos comportamentos, sejam eles quais forem, moldam-se através de consequências, ou da possibilidade destas. E é por isto que o contar até 3 por vezes funciona – nunca se sabe o que vem depois do 3. Se contingencia-comportamento-operantefor uma palmada, então contar até 3 pode ser suficiente para terminar um comportamento, porque já se sabe o que antecipa e queremos evitar essa mesma consequência. Mais ou menos como ver um radar e diminuir a velocidade – o radar não é a consequência, mas sabemos que consequência se segue se não tirarmos o pé do acelerador. Não significa que deva dar uma palmada ou qualquer outra consequência igualmente aversiva ao seu filho por não arrumar os brinquedos antes do 3. Significa apenas que existem formas mais eficazes de moldar o comportamento dele do que debitar uma sequência numérica com ar ameaçador.

Então porque é que usamos ameaças tantas vezes? Usamo-las porque, com frequência, são reforçantes para nós. Sentimos que estamos a fazer alguma coisa para mudar o que queremos, deixamos sair parte da zanga e da frustração e, no caso de conseguirmos impor algum medo, o comportamento sobre o qual (pensamos que) estamos a agir pára, pelo menos às vezes – reforço negativo para nós. Porém, se usa muito esta estratégia, da próxima vez que quiser que o seu filho cumpra uma ordem, provavelmente vai ter de repeti-la algumas vezes, acabando com o contar até 3 que só vai funcionar até que ele perceba que efetivamente não lhe acontecerá nada quando o pai ou a mãe chegarem ao 3.

Em vez disto, use consequências diretas. A palavra consequência soa a algo negativo mas na verdade não o é – consequência é apenas aquilo que acontece após o nosso comportamento. Uma consequência tanto pode ser positiva como negativa, sendo que das consequências positivas resulta um aumento do comportamento que as antecedeu e das negativas c66e78a6-625c-44b2-8f72-79c1f3ad8e71_levandobronca_630pode resultar uma diminuição do comportamento que as antecedeu. O problema de usar consequências negativas é que a maioria das pessoas não sabe adequá-las ao comportamento em questão, de forma a que a criança não só aprenda que aquilo não se faz mas também o que deve fazer em vez disso. Uma consequência deve sempre ensinar alguma coisa acerca do comportamento esperado da parte da criança. Por exemplo, se o seu filho parte um vaso porque anda a correr pela casa, ficar de castigo no quarto não lhe ensina nada (e possivelmente ainda tem uma panóplia de brinquedos disponíveis para brincar enquanto espera que ele esteja a pensar sobre o que fez); porém, fazer com que ele tire do porquinho mealheiro dinheiro para comprar um vaso novo, ou com que faça tarefas domésticas no valor de x até juntar dinheiro suficiente para comprar o vaso, já lhe ensina algo sobre o valor das coisas e a ter cuidado com elas, além de ser uma consequência quase natural – se parto uma coisa, tenho de comprar uma nova.

Não é que não possa avisá-lo previamente da consequência – pode e deve, pois este aviso pode, com o tempo, ser suficiente para pôr fim a um comportamento aborrecido. É a lógica por trás do aviso na estrada antes do radar. Mas para funcionar assim, a consequência deve ser imediata, sem direito a segundas e terceiras oportunidades, sem esperar até que perca toda a paciência e aplicada sempre da mesma forma (e, por isto, o aviso deve ser só um e deve referir-se a uma consequência possível de ser aplicada por si no momento). Imagine só que é consigo, que vê o sinal e o radar, que não reduz a velocidade e que não é multado. Na vez seguinte, provavelmente arrisca novamente. E quando perceber que o radar e o excesso de velocidade não antecipam multa nenhuma, não vai com certeza conduzir mais devagar perante o aviso de um radar.

Caso não tenha percebido, oo-poder-do-elogio contar até 3 é apenas um exemplo das ameaças vagas que muitos pais fazem aos filhos e que podem não criar grande problema mas que, ao mesmo tempo, com frequência estão por trás da desobediência constante de algumas crianças. Lembre-se que a par das consequências negativas pode (e deve) usar consequências positivas para os comportamentos adequados. Perca a cabeça com elogios e autocolantes em forma de estrela – nunca subvalorize a eficácia do reforço social.

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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