Rule-governed behavior

E se soubesse que ia ser multado, pisava mais o acelerador?

Já faláExcesso de velocidademos aqui acerca do quão difícil é cumprirmos promessas feitas a nós próprios, que envolvem uma mudança comportamental que desejamos (tal como seguir uma dieta, fazer mais exercício físico, deixar de fumar, etc.). Mas e o resto dos nossos comportamentos? Aqueles que sabemos que devíamos (ou que não devíamos) fazer porque alguém nos disse que assim o era e nós fazemos-lhe orelhas moucas? Já parou para pensar por que motivo a maioria de nós é profissional no que toca a contornar regras?

A verdade é que, por muitas regras que existam (criadas por nós próprios ou não), o nosso comportamento é maioritariamente regulado por consequências que sejam imediatas, e isto nem sempre acontece com uma regra. Todos sabemos que, se não lavarmos os dentes, um dia teremos cáries e outros problemas graves associados à nossa saúde oral. No entanto, isso não é imediato; não sabemos quando os problemas de saúde oral podem começar. É uma consequência longínqua, embora provável, tal como o é a hipótese de vir a ter cancro se é fumador. Se alguém lhe disser que o consumo excessivo de um produto terá efeitos laxativos imediatos… é provável que não abuse, certo?

Contudo, a distância temporal da consequência não é tudo. Há outros fatores que influenciam a nossa capacidade de seguir regras. A probabilidade da consequência, por exemplo, é o fator mais importante. Sabe que pode ser multado se conduzir em excesso de velocidade, não sabe? Já o fez na mesma, não já? Mesmo que continue a fazê-lo, não será sempre multado. Será multado uma porção ínfima das vezes em que conduzir em excesso de velocidade. Isto faz com que a consequência seja improvável, o que aumenta a probabilidade de incorrer no comportamento que sabe que não devia fazer.

Outro fator prende-se com a gravidade da consequência. Já teve uma dor de barriga por comer chocolate em demasia? Pois, muitos de nós já tivemos. A regra “se comeres muito chocolate ficas com dor de barriga” não é eficaz, já que uma dor de barriga é uma consequência aversiva mas suportável e compete com a consequência imediata (e bastante agradável) que é poder comer uma quantidade absurda de chocolate. Por outro lado, a regra “se beberes lixívia podes morrer” provavelmente é suficiente para que não queira tentar beber lixívia. Para a maioria de nós, a morte é uma consequência grave que baste para que evitemos os comportamentos que podem tê-la como consequência. Claro que também pode morrer por conduzir em excesso de velocidade, mas aqui já entra novamente a probabilidade – já conduziu muitas vezes assim e, se está a ler este artigo, ainda não morreu. Se beber lixívia uma vez, provavelmente é o suficiente para que não tenha a mesma sorte.

Agora já sabe o porquê de nem sempre as consequências que mencionamos (uns aos outros, aos nossos filhos, a nós próprios) serem suficientes para que certos comportamentos ocorram ou não. Há mais fatores em jogo além das hipotéticas consequências – a distância temporal, a gravidade e, acima de tudo, a probabilidade das mesmas. Este nosso comportamento regulado por regras funciona assim mesmo que não exista aprendizagem direta – não precisa de já ter sido multado para saber que não deve conduzir acima de um certo limite nem de ter um acidente para saber queproibir é perigoso, e também não precisa de ser atropelado para aprender a olhar para ambos os lados antes de atravessar a estrada. E agora que (esperemos) consegue perceber-se e aos outros um bocadinho melhor, não tenha medo de adicionar consequências (imediatas, prováveis e graves q.b.) a certos comportamentos – se o seu filho não lava sempre os dentes sob a ameaça de estes apodrecerem, já sabe porquê (no dia seguinte ele vê-se ao espelho e os dentes estão ótimos, e no dia seguinte também, e no dia seguinte também); se o seu filho não faz sempre os trabalhos de casa sob a ameaça de não aprender, de ficar burro, de não ter boas notas, de não vir a ser ninguém na vida, já sabe porquê (ele não vai propriamente sentir-se menos inteligente por não ter feito os trabalhos de casa e até teve mais tempo para brincar por causa disso); se não consegue seguir aquela dieta ou ter uma alimentação saudável também já sabe porquê (não vai ter dois quilos a mais nem estar doente no dia seguinte só por ter comido aquele bolo); se ainda não deixou de fumar, mesmo sabendo que isso pode matá-lo… isso mesmo, também já sabe porquê – fumar não vai matá-lo amanhã. Contudo, se o seu filho ganhar uma estrelinha por cada dia em que lavar os dentes sempre que necessário e as estrelas lhe derem acesso a uma atividade preferida no fim-de-semana, as probabilidades de este comportamento aumentar são maiores. Já falámos aqui acerca de estratégias para mudar os seus próprios comportamentos e os dos outros; leia ou releia e experimente. Afinal de contas, se não experimentar nenhuma estratégia… não sabemos o que vai acontecer (consequência sem gravidade, com prazo desconhecido e incerta). Por outro lado, se experimentar, e se aplicar bem e de forma consistente as estratégias, é provável que haja mudanças rápidas no sentido que deseja. Analise os comportamentos que gostava de mudar em si ou nos que o rodeiam e procure perceber o que os mantém, ou o que mantém a sua ausência. Perceba o que falta, que consequências poderiam funcionar e aplique-as. Boa sorte!

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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