O seu filho tem bicho carpinteiro?

1Nos últimos anos, ouve-se falar tanto em hiperatividade que podia ser quase uma doença do novo milénio. É verdade que a crescente tendência para fechar as crianças em casa com um tablet à frente dos olhos pode contribuir para uma maior agitação – afinal de contas, as crianças são crianças e precisam de libertar energias. Quando não o fazem nos momentos certos, vão fazê-lo nos errados. Portanto, este crescendo pode ser composto em parte por diagnósticos errados, atribuídos a crianças que mostram mais agitação motora e/ou menos atenção na escola do que seria de esperar por outras razãoes que não a Hiperatividade. Como saber, então, se o seu filho é de facto hiperativo?

Primeiro que tudo, saiba que, embora não seja por acaso que a Hiperatividade e o Défice de Atenção costumem ser referidos juntos, é possível ser-se afetado por apenas um deles. Considere as seguintes características:

  • Pouca atenção aos detalhes, erros por falta de atenção
  • Pouca concentração durante tarefas / atividades
  • Estar “noutro planeta”, não ouvir quando alguém lhe dirige a palavra
  • Não cumprir instruções ou não terminar tarefas
  • Dificuldades em organizar o trabalho (má gestão do tempo, trabalho desorganizado, falhar prazos)
  • Evitar tarefas mentalmente exigentes
  • Perder objetos do dia-a-dia
  • Distração fácil
  • Esquecer-se de tarefas do dia-a-dia (recados, pagar contas, consultas…)

Por outro lado, as características da Hiperatividade são bem mais visíveis:

  • Agitação motora constante e prolongada (“parece que tem pilhas”)
  • Não permanecer sentado muito tempo num contexto que o exige (ex. sala de aula)
  • Correr, saltar, trepar coisas mesmo quando desadequado
  • Dificuldade em brincar / realizar atividades de lazer calmamente (ex. ler um livro)
  • Falar demasiado e frequentemente de forma impulsiva
  • Impulsividade geral: dificuldade em esperar pela sua vez numa conversa (ex. responder antes do final da questão, interromper os outros) ou numa atividade (ex. jogos), usar as coisas dos outros sem pedir

Novamente, 5 ou 6 destas características podem sugerir um diagnóstico de Hiperatividade. Uma combinação de características de ambos sugere um diagnóstico de Hiperatividade e niño-hiperactivoDéfice de Atenção, sendo que em qualquer dos casos as mesmas devem acompanhar a pessoa em questão desde a infância, ocorrer de forma constante e a níveis não esperados para a faixa etária, afetar a vida académica, familiar e/ou social da pessoa e não ser atribuídas a fatores de stress (ex. distúrbios familiares, ansiedade, depressão ou outra patologia ou medicação). Se as características surgiram apenas na adolescência ou idade adulta, pode haver outros fatores que as justifiquem, sem que exista um diagnóstico; ao mesmo tempo, se há sinais exibidos desde a idade pré-escolar mas apenas 2 ou 3, um diagnóstico também é pouco provável.

Se tem dúvidas em relação ao seu filho, procure um especialista. Saiba que há fatores que contribuem para a ocorrência deste distúrbio, nomeadamente: fatores genéticos, prematuridade, mãe fumadora ou consumidora de álcool ou outras substâncias durante a gestação, danos cerebrais; há também a hipótese de existirem outros problemas associados a este distúrbio, tais como ansiedade, dificuldades de aprendizagem, distúrbios emocionais e Perturbação de Oposição e Desafio – de que falámos aqui.

Em relação ao diagnóstico, embora estejam a ser feitos avanços nesta área, ainda não há um teste de laboratório que permita um diagnóstico rápido e certeiro, pelo que atualmente o mesmo passa por reunir informação de pais, professores e outros prestadores de cuidados ou pessoas significativas, preencher checklists e eventualmente alguns exames médicos para excluir outras causas para os sintomas (ex. despistes visuais e/ou auditivos).

Estima-se que este distúrbio comportamental afete perto de 10% da população em idade escolar, sendo até 3 vezes mais provável no sexo masculino. Desta forma, se pretender ajuda, procure um médico e um psicólogo. As possíveis intervenções e estratégias a aplicar devem ser guiadas  por um profissional. Falamos mais sobre este assunto no próximo artigo, fique atento!

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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