Largar a chucha – ou como ajudá-lo a dizer adeus ao seu primeiro grande amor

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É importante começar por compreender por que motivo os bebés chucham. Primeiro que tudo, a sucção é um reflexo, presente já na gestação. Quando algo toca os lábios de um recém-nascido, por norma ele tenta chuchar de imediato. É por este motivo que vemos imagens de bebés a chuchar no dedo ainda dentro da barriga da mãe. Depois do nascimento, o reflexo mantém-se, tendo como função a alimentação – é um comportamento mantido através da seleção natural ao longo dos milhares de anos que nos precedem e que garante a sobrevivência da espécie. Animais que não são mamíferos não têm este reflexo, porque não precisam dele.

O hábito de chuchar na chupeta em particular vem mais tarde e ganha outras funções rapidamente. Como? É simples: o bebé chora, utilizando a única forma de comunicação que tem com o mundo; depois de garantir que todas as suas outras necessidades básicas estão satisfeitas, a mãe ou o pai avançam para a próxima – tentam acalmar o filho que 04109660014267061252xchora por outro motivo qualquer que não seja fome, dor, sono, sede, frio, calor, desconforto por ter a fralda suja. O movimento de sucção acalma os bebés não só por estar já associado a algo positivo e tranquilizante (o momento em que mama), mas também por ser um movimento repetitivo, que tem tendência a tranquilizar-nos (nunca deu consigo a abanar a perna incessantemente quando está nervoso?), e porque vem muitas vezes associado a outra coisa como colo, uma voz calma, ser embalado (outro movimento repetitivo). E eis que se cria uma nova contingência: o bebé chora, recebe a chucha, acalma-se. Rapidamente para os pais o choro ganha um novo significado – agora ele também chora “porque quer a chucha” – e para o bebé também – agora ele ganha a chucha quando chora. Não há nada de errado nisto, até porque nos primeiros meses e mesmo anos de vida não dispomos de grandes mecanismos de autorregulação que nos permitam acalmarmo-nos a nós próprios. Há, contudo coisas de que precisa de saber acerca do hábito de chuchar.

Primeiro que tudo, prefira sempre que este hábito seja adquirido em relação à chupeta e não em relação ao dedo ou dedomesmo ao biberão. O biberão, tal como a mama, são para alimentar. Não devem ser usados para tranquilizar o bebé. A comida deve vir quando ele tem fome, não quando está nervoso. Ao mesmo tempo, não deve usar a chucha para acalmá-lo quando ele tem fome. Não crie uma dependência que não precisa de existir! Além disto, o biberão, quando utilizado com frequência, é mais prejudicial se considerarmos os danos anatómicos causados pela sucção. O mesmo acontece para o dedo, pois não tem a anatomia especificamente desenhada da chucha para ser colocado na boca e sugado – além de estar disponível o tempo todo, o que torna o desmame de chuchar no dedo muito mais complicado! Se o seu filho chucha no dedo, pode colocar-lhe na ponta do dedo algo com um sabor desagradável, que ajudará a tornar o ato consciente (hábitos por norma não são conscientes) e substituir este hábito pelo da chucha.

Se já superou isto tudo e apenas precisa de ajuda para que o seu filho deixe a chupeta, deixamos algumas dicas:

  • Uma criança pode deixar a chucha a partir dos 18 meses e alguns especialistas sugerem que a deixe até aos 24 meses, sendo que a partir daqui aumenta a probabilidade de causar danos anatómicos ao nível da boca, da língua, dos maxilares e da dentição.
  • Faça uma retirada gradual. Se o seu filho usa a chucha o dia todo, vá reduzindo gradualmente os períodos em que ele a usa até que a use apenas para dormir (sesta e noite).
  • Adeque o método que vai usar ao seu filho e à idade dele. Se já tem mais de 3 anos, terá provavelmente idade para compreender a contingência entre passar uma noite sem a chucha e receber um pequeno prémio ou marcar uma cruz no calendário para que ao final de uma semana receba um prémio se tiver mais do que x cruzes. Se o seu filho é uma criança ansiosa e se está muito apegado à chucha, deve evitar coisas como “quando fizeres 4 anos páras de usar chucha porque já vais ser muito crescido” – vai deixá-lo ansioso até ao dia do aniversário.
  • Evite também tirar-lhe a chupeta à socapa, enquanto dorme, por exemplo. Só vai fazer com que não confie em si e com que fique ansioso da próxima vez que for dormir – sabe-se lá o que mais vai tirar-lhe?

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  • Se achar que há necessidade, substitua a chucha na hora de dormir por outro objeto relaxante (um boneco, uma fralda…). Claro que mais tarde poderá também ter de fazer a retirada deste objeto, mas pelo menos este não deixa consequências físicas como a deformação dos dentes.
  • Diga a verdade ao seu filho, se ele já tiver idade para compreender. Diga-lhe que os bebés precisam da chucha para estarem mais calmos, mas que quando crescem deixam de usá-la porque deixa de fazer falta e começa a fazer mal. Combinem um momento para ele deixar a chucha – não lhe imponha um momento, ofereça-lhe algumas escolhas e deixe que seja ele a decidir. Pergunte-lhe se prefere deixar a chucha ao Pai Natal para que ele a leve para outros meninos que precisam, ou se prefere deixá-la à Fada das Chuchas para que ela lhe deixe uma moeda ou um chocolate. Pode também sugerir que a entreguem ao pediatra da próxima vez que forem lá, garantindo que ele vai ficar muito contente por ver que o seu filho está tão crescido (fale com o médico antes, com certeza ele não irá importar-se de alinhar na brincadeira).
  • Faça o que fizer, não caia na asneira de tentar usar a vergonha para tentar que o seu filho perca o hábito de chuchar. Não faça comentários como “devias ter vergonha, um menino tão crescido ainda com chucha!” ou “olha aquele menino mais pequenino do que tu e já não usa chucha!”. Acha mesmo que é justo fazer o seu filho sentir-se mal por um hábito que você ajudou a criar e que deixou que se mantivesse até agora? Se alguém tem culpa que uma criança de 4 anos ainda use chucha, certamente não é a criança.
  • Faça o que fizer, escolha o método que escolher, não volte atrás. Se decidiram entregar a chucha, ela deve mesmo desaparecer e nunca mais estar dadeus-chupeta-e1452521456731isponível. Prepare-se para possíveis birras e para não ceder perante as mesmas (aproveite umas férias ou um fim-de-semana em que o seu filho possa dormir mais caso a ausência da chucha lhe perturbe o sono). Se ele já só usa a chucha para dormir, nunca mais lha entregue durante o dia (pode até dizer-lhe que a Fada das Chuchas sabe que ele está a crescer e que por isso já só vem deixar a chucha quando ele vai dormir – ou seja sincero e diga-lhe que ele já não precisa da chucha porque já crescido o suficiente para andar sem ela). Como em tudo o que tentamos ensinar, a chave é persistência e consistência e não desista – depende de si, não do seu filho.

 

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

 

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