Como lidar com a dislexia

No último artigo, falámos sobre a dislexia – o que é, taxas de incidência, sinais (pode lê-lo aqui). Este artigo traz-vos estratégias para ajudar o seu filho (ou o seu aluno) a adquirir competências que por norma se encontram comprometidas na presença da dislexia. Aqui ficam elas:

  • Trabalhe a discriminação entre os sons das letras, entre as sílabas e entre as palavras, sobretudo as que são similares ou têm sons similares. Mais do que distinguir letras, é importante que a criança consiga distinguir os sons que as mesmas fazem, já que esta é, por norma, uma dificuldade que afeta a leitura e a escrita da criança com dislexia. Não tente fazer tudo ao mesmo tempo – comece pelo mais simples, a discriminação de letras e respetivos sons. Tenha cartões individuais com as letras (uma letra em cada cartão) maiúsculas, minúsculas, manuscritas e de imprensa L__bios___Sons_520c1c8542626e apresente-as uma a uma perguntando que letra é e que som faz (por exemplo, a letra éfe faz o som ffff). Coloque os cartões na mesa (entre 2 e 6, dependendo do grau de dificuldade) e peça para a criança apontar a letra que faz determinado som (“aponta a que faz sssss”). Em vez de trabalhar logo todas as letras do alfabeto, o que seria aborrecido, longo e provavelmente mais difícil dado que cada letra teria menos treino, faça conjuntos de letras a trabalhar, incluindo sempre letras com sons parecidos (m/n, p/b, f/v…); quando este conjunto estiver adquirido, acrescente 5 letras ao conjunto, trabalhando agora um conjunto maior e com mais discriminação implícita. Depois das letras, faça o mesmo para pares de letras que fazem diferentes sons (vogais com vogais, vogais com consoantes, consoantes com vogais e consoantes com consoantes – para os sons dobrados, como tr, br, pt…) e que devem também ser apresentados em cartões individuais. Depois passe para palavras, sendo que estas podem incluir palavras sem sentido (junção de sílabas já trabalhadas). Nas palavras com sentido, para garantir a compreensão do mesmo, pode apresentar imagens na mesa e entregar à criança uma palavra que ela deve ler e fazer corresponder com a imagem correta. Pode trabalhar esta discriminação também com números.
  • Trabalhe a fluência. pauta4-acesso-a-livros-gratuitamenteNuma criança disléxica, é provável que ler mais rápido dê azo a mais erros. Lembre-se que deve começar pelo mais simples – se a criança já discrimina uma quantidade considerável de sons e letras, veja quantas consegue fazer num minuto ou em 30 segundos, pedindo-lhe que tente bater o seu recorde a cada vez que tentar. Verifique se a ausência de erros se mantém. Pode fazer isto com sílabas já trabalhadas, com palavras apresentadas uma a uma e mesmo com um texto, caso já seja esse o nível. Para cada sprint de 30 segundos, registe não só o número de palavras lidas no total (incluindo as erradas), como também o número de erros. Estes erros devem ser corrigidos no final do sprint e deve ser dada à criança uma oportunidade para reler a frase corretamente.
  • Treine também a escrita. Pode usar as mesmas estratégias acima definidas, quer para a discriminação, quer para a fluência, ambas competências importantes na escrita. Pode começar por “escreve a letra que faz o som ssss”/“escreve um ésse” ou pela escrita silábica, igualmente por conjuntos de cinco a dez aos quais vai acrescentando outras. Pode igualmente passar para as sílabas e depois para as palavras, e após haver uma quantidade considerável de letras / sílabmae-e-filho-licao-de-casa-1366913277663_615x300as / palavras que a criança já escreve sem erros, inicie o treino de fluência, vendo quantas dessas palavras a criança escreve por sprint (e se nesse caso dá erros), quer a copiá-las, quer através de um ditado. Insista também nas cópias de palavras e frases e faça aprendizagem sem erro – dê mais oportunidades à criança de escrever bem as palavras do que de errar. Para cada erro que dá, pode por exemplo escrever bem a palavra cinco vezes (sem que isto seja uma punição!). Caso existam dificuldades ao nível da motricidade fina, insista na pega correta no lápis e na escrita dentro das linhas. Pode também realizar exercícios de grafismos (em que a criança tem, por exemplo, de cobrir um tracejado específico com o traço do lápis).
  • Não se esqueça da interpretação. À medida que a criança avança na leitura e começa a ler textos, é importante que compreenda o que está a ler, dificuldade interque um disléxico também pode sentir com maior intensidade. Para facilitar a interpretação de uma frase, pode colorir com cores diferentes o sujeito e o predicado, por exemplo (mais tarde pode colorir outros elementos da frase) ou, para ser mais fácil, as informações quem e o quê, antes de pedir estas informações à criança (exemplo: O João comeu uma maçã – “O João” poderia estar a azul e “uma maçã” a vermelho; as perguntas seriam “quem comeu uma maçã?” e “o que é que o João fez?”); depois, deixe que seja a criança a colori-los, para identificar os diferentes componentes da frase, antes de retirar as cores. Se for necessário, a par das cores pode usar uma pequena legenda a dizer “quem” e “o quê” junto dessas informações na frase, apenas até a criança decorar que cor corresponde ao quê.

Este treino deverá ser realizado todos os dias, mas sempre em períodos curtos de cada vez (como 5 minutos de cada vez). Não puna nem ralhe com a criança em questão se não conseguir realizar as tarefas propostas – se for o caso, vocês não as facilitou o suficiente, ou está a deixá-la falhar mais do que acertar. É importante garantir o sucesso e associá-lo a alguma forma de reforço – como um gráfico em que a criança anota quantas palmaterial_didatico_safaridossonsavras leu sem erros, ou quantas palavras leu num minuto (ver a linha do gráfico a subir será reforçante e no topo até pode haver uma imagem de algo de que a criança goste muito, como um gelado num sítio especial, ou um carrinho para a sua coleção). Torne as tarefas divertidas ao máximo, já que estas crianças facilmente associam as tarefas de escrita e leitura (ou mesmo todas as tarefas académicas) a algo difícil, aversivo, desmotivante, embaraçoso e frustrante.

Se o seu filho sofrer de dislexia, não transforme esta perturbação num segredo. É muito mais fácil para uma criança perceber o que há de errado com ela e o que deve fazer para superá-lo se souber que é um problema que afeta várias outras crianças e que é bem distinto de burrice. Primeira-Reunião-de-Pais-200x150Os professores do seu filho devem estar a par e podem explicar à turma em que consiste a dislexia. Devem ter o cuidado de sentar o seu filho mais próximo da mesa do professor, para que este possa estar mais atento a distrações, dificuldades e falhas. Nos testes, o seu filho pode ter tempo extra e as perguntas podem ser-lhe lidas pelo professor para garantir que as compreendeu (aliás, estes ajustes e outros necessários são um direito de qualquer criança com dificuldades de aprendizagem). O professor também pode evitar fazer com que o seu filho leia em voz alta em frente à turma inteira – é importante criar momentos para o sucesso, não para o fracasso e para a frustração.

Caso queira aplicar ou compreender melhor estas estratégias, ou lhe surja qualquer outra questão, não hesite em contactar-nos!

catarina-carrapico

Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

Ainda não existem comentários.

Deixe um comentário