Quem tem medo compra… um analista comportamental.

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O que é o medo afinal? O medo não é mais do que uma reação do nosso corpo a algo que ele interpreta como sendo perigoso. É uma reação vital, um mecanismo instintivo que permite mantermo-nos vivos ao protegermo-nos de ameaças reais. Perante um estímulo que por algum motivo representa perigo, o nosso cérebro ativa a libertação de hormonas associadas ao stress e desencadeia-se uma série de reações físicas que têm como função avisar-nos do perigo que corremos e preparar-nos para reagir – o coração acelera, os músculos ficam tensos em preparação para nos defendermos, encolhemo-nos ou fugimos instintivamente. Resume-se a isso: evitamos o que interpretamos como perigoso. Contudo, nem sempre o que o nosso cérebro interpreta como perigoso é uma situação ameaçadora de vida. Então por que motivo reagimos da mesma forma quando nos aproximamos de um penhasco e quando vemos uma aranha?

A experiência levada a cabo por Watson em 1929 (que hoje em dia sabemos não ser propriamente ética, mas apontou conclusões interessantes – pode saber mais sobre este estudo aqui) sugeriu que os medos, como outras reações emocionais, também são aprendidos. Temos medo de abelhas porque já fomos picados por uma, ou porque alguém que conhecemos já foi e nos disse que dói, ou porque vimos o Apifobia – algo já associou as abelhas à dor; temos medo da água porque sabemos que há pessoas que morrem afogadas; temos medo de cobras porque vimos o BBC Vida Selvagem e lá estavam elas com veneno a pingar das presas; temos medo de morrer porque há dor e sofrimento associados a esse momento. Note que o facto de o medo ser aprendido não significa que já tenhamos tido contacto direto com a situação; basta o contacto indireto, basta saber que existe uma possibilidade de certa situação nos causar dor ou desconforto (fatores já aversivos para nós), para que esse estímulo também ele se torne aversivo e algo que queremos evitar.

Se o medo não afeta a nossa vida em demasia, podemos aceitar viver com ele. Mas smedoe afeta e se nos priva de experiências positivas, então não há razão para não agir sobre esse medo. Hoje em dia as crianças passam cada vez mais tempo dentro de quatro paredes e cada vez menos tempo em contacto com o mundo real e a experimentar, o que pode contribuir para que tenham mais medos, já que o desconhecido, só por si, é uma situação algo aversiva e passível de despertar medo. Agora que já sabe que o medo é algo aprendido, saiba também que é possível diminuir esta reação excessiva utilizando algumas estratégias comportamentais simples:

  • Esqueça a brincadeira de atirar o seu filho para dentro de água para que ele perca o medo. Pode funcionar, mas o risco de o susto contribuir para tornar a situação ainda mais aversiva (e para que ele deixe de confiar em si) é maior e não compensa. Faça aproblog1908-f1ximações sucessivas: se o seu filho tem medo da água, deixe-o primeiro brincar junto da água, depois sente-se com ele na piscina com os pés dentro de água ou leve-o a molhar os pés na praia e vá aumentando o contacto gradualmente, sendo o último objetivo dar umas braçadas. Note que gradualmente não significa tudo no mesmo dia, nem significa que tentou uma vez levá-lo a molhar os pés e não funciona por isso não vale a pena; gradualmente significa que pode definir os passos previamente com o seu filho, que deve fazê-los com ele, que não deve insistir além do combinado, que se ele não cumprir hoje amanhã têm de tentar novamente. Idealmente, só quando ele estiver perfeitamente confortável numa etapa é que deve passar à seguinte, e a primeira etapa deve ser a que menos desperta medo (nem que seja estar a dois metros da água). Se ele hoje pôs os pés na água mas teve muito medo, espere até que ele ponha os pés na água sem hesitar e só depois disso pode exigir que se molhe até às coxas.
  • Nem pense em fazer comentários como “assim fico triste contigo” ou “olha aquele menino tão crescido a nadar sozinho” – é desnecessário, desencoraja em vez de encorajar e não transmite informação útil nem relevante àquilo que estão a fazer.
  • Recompense o seu filho por superar os seus medos, mesmo que seja pouco a pouco. Não há nada de errado nisto – comportamentos que queremos aumentar devem ser reforçados. Pode ser com um elogio, com um “estou muito orgulhoso de ti, foste muito corajoso!”, pode acrescentar um gelado ao elogio ou qualquer outra coisa simbólica mas agradável, tanto faz – e não, o seu filho não vai passar a atuar em troca de gelados, por dois motivos simples: primeiro, voctransferirê não vai dar-lhe gelados por todos os comportamentos positivos que ele emitir para o resto da vida; segundo, ele também come gelados noutros momentos que não estes. Todos nós recebemos por vezes reforços menos naturais (a menos que trabalhe em regime de voluntariado) e até isso é natural. Com o tempo, ultrapassar os medos vai ser reforçante para o seu filho e ele não precisará de muito mais motivação, porque – adivinhe! – no passado esta superação foi associada por si a algo positivo (elogios ou – isso mesmo – gelados).
  • Não hesite em utilizar estas estratégias consigo próprio se tiver medo de alguma coisa e se quiser ultrapassar este medo. Tenha consciência que uma pessoa não tem simplesmente medo, este foi resultado de algumas experiências e, tal como foi aprendido, pode ser desaprendido. Não precisa de ir a correr comprar uma aranha para se ir enfrentar_medosaproximando dela pé ante pé, mas pode começar por ver imagens pequeninas de aranhas, até que isto não desencadeie em si nenhuma reação a não ser o pensamento “que bicho feio”. Não consegue sequer ver as imagens? Deixe-as num canto da casa, até passar por elas sem se lembrar que estão lá, e depois coloque-as num sítio mais visível. Também não precisa de ir a correr ao topo do Empire State Building (até porque seria difícil correr até lá), mas pode subir ao primeiro andar e espreitar pela janela 10 vezes ao dia, até deixar de sentir medo, antes de subir ao segundo andar. Faça sempre aproximações sucessivas e associe os seus sucessos a algo positivo – espreite pela janela enquanto ouve uma música que o anima, vá no avião a ver uma série de comédia ou a comer chocolate. Lembre-se, a palavra chave é esta: gradualmente.

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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