“Foi ele que começou!”

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Se tem mais do que um filho, é quase impossível nunca ter ouvido esta frase. As relações entre irmãos são frequentemente pontuadas por conflitos. Quer a origem dos conflitos seja ciúmes, competitividade ou simplesmente diferenças individuais, saiba que pode aprender a lidar com estes conflitos de uma forma que torne a vida familiar muito mais harmoniosa.

Em primeiro lugar, auto-analise-se: costuma discutir em frente dos seus filhos? Costuma ter gestos altruístas, dar/emprestar coisas que são suas, despender do seu tempo para ajudar alguém que precise? Costuma fazer comentários depreciativos acerca de terceiros na presença dos seus filhos? As crianças são esponjas, e uma das formas de aprendizagem de todo o ser humano é a imitação. É assim que aprendemos a realizar as mais variadas tarefas. Portanto, dê o exemplo.

Em segundo lugar, lembre-se que a relação entre irmãos tem um papel fundamental no nosso crescimeirmaosnto enquanto pessoas. Implica partilhas constantes – de objectos, de espaços, de atenção; e, muito embora haja uma proximidade grande entre os irmãos, sobretudo se tiverem idades próximas, pois passam muito tempo juntos e a socializar, também é natural (e esperado) que esta relação sirva para aprenderem a resolver conflitos. Portanto não se admire se eles surgirem. Mais, deixe os seus filhos discutirem, desde que não passem os limites do respeito pelo outro (os que você considerar aceitáveis). Abaixo ficam algumas dicas para ajudá-los a resolver os conflitos de forma mais razoável.

  • NUNCA os compare em frente a nenhum deles. Os seus filhos podem partilhar ADN mas são pessoas diferentes. Não são obrigados a ter a mesma personalidade nem a lidar com as diversas situações da mesma forma. Dizer coisas como “o teu irmão merece porque teve melhor nota do que tu na escola”, “o teu irmão está a portar-se muito bem e olha para ti”, “o teu irmão ajudou-me a pôr a mesa e tu não ajudas em nada” é altamente culpabilizante, desmotivante e não dá ao seu filho competências para melhorar em nada. É feedback vazio – e pior, cruel.
  • castigoNão os castigue por terem um conflito, mesmo que este passe dos limites. Novamente, não vai ensinar-lhes nada, já que um castigo não ensina competências. Sente-se com eles, ouça os dois e diga-lhes o que podiam ter feito para resolver.
  • Não tome partidos nem resolva os conflitos por eles. Ensine-os a fazê-lo – pode mesmo fazer uma lista com pequenos passos para resolução de conflitos, leia-a com eles, certifique-se de que compreenderam, faça roleplay se for preciso. Afixe-a num sítio visível e se for preciso relembre os seus filhos da existência da lista. Podem constar coisas como “Quando quero uma coisa que o meu irmão tem, peço em vez de tirar e se não puder tê-la no momento espero um bocadinho”, “Quando o meu irmão quer algo que eu tenho, empresto na condição de ele me devolver rapidamente ou digo que empresto mais tarde”, “Quando o meu irmão diz algo que me deixa zangado ou triste, digo-lhe que me deixou zangado ou triste”, “Quando digo alguma coisa que deixa os outros zangados ou tristes, peço desculpa pelo que fiz, mesmo que não compreenda logo que fiz mal”, etc.
  • Reforce os comportamentos adequados. Por vezes um simples comentácriancario como “Gostei muito que tenhas emprestado o carro ao teu irmão, foi muito simpático da tua parte! Estou muito contente contigo” é suficiente. Se os vir a resolverem um conflito de forma adequada sozinhos, leve-os a comer um gelado, por exemplo. Dê feedback específico e positivo: “Gostei da forma como resolveram o vosso problema, foram muito crescidos! Quando ninguém está zangado é mais fácil divertirmo-nos juntos”. Reforce quando fazem favores um ao outro, quando emprestam coisas, quando há um gesto simpático.
  • Se os conflitos surgem nas tarefas domésticas, não seja você a atribuí-las. Dê-lhes uma lista do que é preciso fazer e peça que eles as dividam. Faça uma pequena tabela para que percebam que se hoje um faz a cama e o outro vai limpar a caixa da areia do gato, amanhã podem trocar.

Não se esqueça que um irmão é provavelmente a primeira pessoa no mundo com quem temos um conflito. A forma como os seus filhos vão resolver os problemas entre eles pode espelhar-se na forma como eles vão resolver os conflitos para o resto da vida.

Se surgir um bebé na família, lembre-se que o seu filho mais velho vai perder bastante atenção da vossa parte. Não tente compensá-lo com presentes; é normal que a atenção seja dividida e isso não precisa de ser compensado. O que é preciso é que o seu filho mais velho perceba que ter menos atenção não significa que gostem menos dele, nem que ele é menos importante. Diga-lhe a quantidade de coisas boas que há em ter um irmão mais novo – como vai poder ensiná-lo a andar de bicicleta, como vai ter sempre companhia para brincar, como vai ter um parceiro para o complot contra a sirmãoopa de feijão verde. Envolva-o na vida do bebé, sem que isto passe por dar-lhe responsabilidades ou expectativas que tem de cumprir. Quer que o seu bebé fique associado a coisas positivas, não a algo aversivo. Se perguntar ao seu filho que roupa acha que o bebé deve vestir hoje (em vez de pedir que traga umas calças e uma camisola da gaveta), se lhe perguntar que legumes ele acha que você deve pôr na sopa do bebé e porquê (em vez de lhe pedir que tire cenouras do frigorífico), etc, o seu filho mais velho vai associar o bebé e tarefas que o envolvam a algo positivo – à sua atenção que nem precisou de pedir e a tempo passado consigo, atém de se sentir importante porque está a pedir a opinião dele.

Para finalizar, talvez seja importante ter em mente que os conflitos entre irmãos por norma não se prolongam desta forma desesperante para a vida. Mais dia menos dia, os seus filhos vão apreciar ter um irmão – até lá, experimente algumas destas estratégias.

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Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

2 ResponsesResposta

  1. Always rerieshfng to hear a rational answer.

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