Apanhe-os a portarem-se bem – e não os deixe escapar.

sala de aulaEstar perante duas dezenas de crianças (ou pré-adolescentes), ter a imensa responsabilidade de educá-los para a vida e por vezes ainda ter de dar a parte da educação que cabe aos pais dar – isto podia definir, muito sucintamente, o quão difícil é ser professor. Se no meio destes 20 miúdos houver um (ou dois, ou três) que tem necessidades educativas especiais, a dificuldade triplica; não só porque o professor é só um e há miúdos que valem por cinco, mas também porque, no nosso país, a formação dada aos futuros professores para que saibam lidar com crianças ou jovens com necessidades especiais (e para que saibam técnicas eficazes a usar para amenizar os problemas que vão surgindo) é perto de nula. Os problemas podem ser imensos e tão variados como: conversarem uns com os outros durante a aula, levantarem-se, fazerem comentários desadequados, má postura no lugar, desatenção – e há sempre o palhacinho da turma, aquele que adora atenção mas que a pede de todas as formas erradas que possam existir. Como em tudo na vida, é uma questão de ganhos. As consequências atribuídas a cada comportamento desapropriado – e a cada comportamento apropriado – têm de ser adequadas ao mesmo e potenciar o seu desaparecimento (ou o seu aumento). Já deve saber isto, mas mandar um miúdo para a rua não é uma consequência adequada a nenhum dos casos – poderia ser, se na sala de aula estivessem a fazer algo de espetacular em que ele quisesse muito participar – não é o caso, pois não? Mas e se a sala de aula for mesmo um sítio espetacular? E se conseguir fazer com que eles queiram estar ali, e com que queiram ouvi-lo, e responder-lhe, e estar bem sentados, em vez de estarem a perturbar a aula? Primeiro que tudo, tenha em conta o que reforça cada miúdo. O palhacinho da turma adora atenção, e não há atenção melhor do que a do único adulto presente na sala, que até pára tudo o que está a fazer para falar diretamente com ele, para olhar para ele, para lhe dar uma consequência direta a ele. Pense um bocadinho… parou de dar aquela matéria chata que ele não queria ouvir, deu-lhe a atenção que ele queria e ainda pôs a turma inteira parada a olhar para ele. Acha que isto não é uma consequência que agrade alguém que só quer ser o centro das atenções? Ignore-o. Peça à turma toda que o ignore naquele momento – e diga-lhe que terá a atenção de todos quando fizer um comentário adequado na sua aula. E implemente algumas das estratégias que sugerimos abaixo.

  • Arranje um sistema que lhe permita dar à turma rapidamente feedback positivo acerca dos comportamentos que quer aumentar. Tenha consigo um rolo de senhas, por exemplo, que distribui rapidamente pelos alunos sempre que eles estiverem bem sentados, sempre que levantarem a mão para colocar uma questão pertinente, sempre que fizerem um comentário adequado, sempre que responderem a uma questão sua, sempre que ajudarem um colega. São só miúdos, não são seres extraterrestres – de certeza que há comportamentos adequados que surgem de vez em quando e que pode reforçar de forma a aumentar a frequência com que acontecem. Um sistema de senhas não lhe rouba tempo, não precisa de parar o que está a fazer, basta entregar uma senha e dar um feedback específico relativo à razão pela qual está a dar aquela senha (“gosto que me tenhas respondido!” / “estás atento à aula!”). Cada aluno pode colocar o seu nº de aluno nas senhas que recebe. No final da aula, reserve 5 minutos para um pequeno sorteio (tenha um papelinho com todos os números de aluno da turma num saco e tire meia dúzia ao acaso) – os números que saírem ganham alguma coisa (pode ser a oportunidade de escolherem um jogo para a turma toda fazer, pode ser uma autorização para ir para o recreio 5 minutos mais cedo… tenha o cuidado de adequar a consequência à idade dos seus alunos; um aluno em idade pré-escolar pode sentir-se incrivelmente importante com um crachá a dizer “hoje sou o primeiro da fila”, enquanto um pré-adolescente pode adorar ter um dia livre de trabalhos de casa.
  • Não tem paciência para os papelinhos, ou para sorteios: faça um tracinho no quadro (ou num placar) por cada comportamento que quer aumentar na good bsua sala de aula. Defina que quando atingirem x tracinhos/pontos, ganham algo. O número de pontos tem de ser o mesmo de aula para aula, aumentando apenas quando é atingido facilmente pela turma (por exemplo, se ganham o prémio três vezes seguidas, pode aumentar um pouco o critério para voltarem a ganhar o prémio). Tem de garantir que a turma consegue atingir o critério – se definiu 50 pontos e a turma só atinge 20, talvez tenha sido um pouco ambicioso. Quando atingirem o critério, deixe-os escolherem algo – 5 minutos de tempo livre, o jogo do telefone estragado, um pacote de gomas para dividir pela turma… Opcionalmente, podem contar os pontos só no final da aula, e então verificar se atingiram o critério (aí tem de garantir que tem tempo para reforçá-los na mesma, e não pode ser tempo de recreio – e também não pode ficar para a próxima, as consequência funcionam se forem imediatas).
  • Pode afixar na sala as regras (o que dá direito a pontos), ou pode apenas dizê-lo, mas defina a contingência que vai ser usada, sempre pela positiva – “quando fizerem x, vão ganhar y”.
  • Não faça chantagem com os pontos (“se não se portam bem não ganham pontos!” – simplesmente não resulta) e não retire pontos nem senhas que já foram ganhos (e merecidos) como punição para um comportamento desadequado. Repetimos – ignore os comportamentos desadequados. Eles vão diminuir com a aplicação correta da estratégia. Se os comportamentos adequados aumentam, os outros têm de diminuir, porque são incompatíveis – ninguém consegue estar a dizer piadinhas ao mesmo tempo que participa bem numa aula, pois não? Se não diminuírem de imediato, talvez não esteja a usar as consequências certas. Pode perguntar à turma diretamente o que gostariam de ganhar, e ver o que é possível. E não pense que não pode ignorar um miúdo que está a fazer algo que não deve, porque “ele está a portar-se mal, tem de ser repreendido, não posso não fazer nada!” – ignorar não é não fazer nada; é dar a consequência certa a um comportamento cuja função é obter atenção. E sim, ralhar também é atenção. Se não lha der, de todo, não está a alimentar a função do comportamento.
  • Adeque as consequências às idades, às pessoas, ao seu tempo, ao contexto. Talvez o palhacinho da turma seja realmente bom nalguma coisa e ganhe o direito a estar em frente à turma a mostrá-lo (ele pode ensiná-los a tocar guitarra, ou uma técnica de judo, ou partilhar um vídeo de que gostou no YouTube, ou mesmo contar anedotas). Se ele tiver tempo (que mereceu) para se exibir, acha que vai precisar de fazê-lo de forma imprópria?
  • Não deixe de reforçá-los porque não tem tempo. Se têm isto combinado, e se eles cumpriram com a parte deles, tem de cumprir com a sua. Repetimos, não pode ficar para a próxima, e não pode usar tempo de recreio, de outra forma não vai ser reforçante para eles (talvez seja até punitivo porque estão a perder o recreio).
  • Prolongue as consequências. Eles já estão ótimos a atingir os critérios que definiu? Boa, já não precisa de reforçá-los todas as aulas, mas não pode parar de repente. Defina que agora ganham um prémio se no final da semana tiverem atingido x pontos. No final da semana, leve-lhes um bolo, deixe que escolham uma atividade, faça algo prático com eles (parte da aula no recreio, por exemplo). Pode ter um frasco grande transparente com vários traços horizontais, todos à mesma distância; vá enchendo o frasco com berlindes (cada um berlinde é um ponto) – quando atingirem um traço, ganham um prémio. Quando encherem o frasco, podem ganhar um prémio maior.

Acredite que, mesmo fazendo pausas para contar pontos e para entregar reforços, não vai estar a perder tempo com estas estratégias. Já pensou em quanto tempo da sua aula perde atualmente a tentar que os seus alunos estejam quietos, calados e a ouvi-lo? E nem sequer está a resultar, pois não? Quanto muito, vai poupar tempo, e tornar a sua aula muito mais divertida e interessante. Dê-lhes coisas boas quando eles fizerem coisas boas. Pode reforçar qualquer comportamento que queira aumentar.

 É tão simples quanto isto – apanhe-os a portarem-se bem, e não os deixe escapar! 

Catarina Carrapiço, Ms, BCBA
Psicóloga Clínica e Analista Comportamental

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